“Isso aqui eram as folhas que escrevi, fiquei com medo que fosse esquecer”

“Ah, sim. A gravura do Rabino! Isso não é um caderno. Isso aqui eram umas folhas que escrevi, pois fiquei com medo de que eu fosse esquecer. E eu fui escrevendo tudo o que acontecia”. —Ruth Sprung Tarasantchi

Ruth Tarasantchi nasceu em 1933 em Sarajevo, na então Iugoslávia, em uma família sefardita estabelecida na região havia séculos. Com a ascensão dos ustashas, grupo de extrema-direita aliado ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, sua família passou a ser perseguida. Diante da escalada da violência antissemita, a família fugiu para a cidade costeira de Split, onde viveu escondida com documentos falsos. 

Mas Split foi ocupada pelos nazis e, juntamente com a maioria dos judeus da cidade, Ruth e a sua família foram deportadas para Itália: primeiro para Turim e Castelnuovo Dom Bosco, e finalmente para o campo de concentração de Ferramonti di Tarsia. Embora o campo não fosse de extermínio, as condições eram precárias: fome, confinamento e a condição de apátridas marcaram profundamente sua infância. O campo de concentração foi libertado pelos americanos em 1944, possibilitando que a família emigrasse para o Brasil, onde Ruth reconstruiu sua vida.

Em São Paulo, Ruth formou-se como artista, curadora e restauradora. Tornou-se uma das fundadoras do Museu Judaico de São Paulo, onde ainda hoje, aos 93 anos, atua como coordenadora do Acervo de Objetos. Em 2019, publicou o livro A História de Ruth, em que narra sua trajetória por meio de gravuras em metal.

A entrevista acompanha Ruth no percurso de suas memórias e no processo de registro dessas experiências.

Arte e memória: o mundo retratado nas obras de Ruth Tarasantchi

Tamara Crespin: Como você retrata suas memórias nas gravuras em metal?

Ruth Tarasantchi: De diversas formas, as memórias se misturam entre si, e tudo acontece ao mesmo tempo. Por exemplo, essa aqui é a minha escola, onde estudei dois anos na primária e na mesma chapa metálica está a planta da minha casa. Atrás havia um quintal, com plantas e flores, tudo aqui era a casa. Tudo lembrança minha, porque não existe mais nada.

O meu mundo em Bugojno

Em um momento da minha vida, entendi que eu tinha que passar tudo isso para a gravura, para não esquecer. E eu passei a contar toda a minha história. Um dia fui passear com alguns amigos e queríamos ver quem fazia xixi mais alto. Eu falei que também queria participar, mas eles não me deixaram. Falaram que eu não poderia fazer parte da brincadeira. Mas eu queria, então eu abaixei e fiz, molhei toda a minha calcinha. Até hoje sinto ela úmida.

Concurso de xixi

Eu sempre estou de vermelho, minha cor favorita. Como na gravura Dança urso, dança. Sempre vinha em nossa casa um cigano com um urso, ele tocava a campainha e eu atendia morrendo de medo, segurando a mão de minha mãe. Ele dizia: “Dona, me dá um café”. E a minha mãe dava o café para ele. Depois ele dizia: “Hum, falta um pouco de açúcar”. E a minha mãe punha mais açúcar, “Agora está muito doce”, e tomava a caneca toda.

Dança urso, dança

Em casa, quando algum bicho morria, a gente recolhia os ossos e levava para um cercado que tinha perto da cidade. Meu avô dizia que eles usavam como uma espécie de filtro. São coisas que só tem aqui, na minha cabeça, e agora estão representadas nessas gravuras.

O menino e os ossos

Existem também memórias difíceis.

No início da Segunda Guerra Mundial meu avô foi torturado pelos ustachas, e logo após ser liberto uma amiga me perguntou se eu gostaria de ver onde haviam prendido ele. E eu fui com ela. Nós andamos até a praça principal, pela janela da prisão municipal conseguimos ver a tábua onde meu avô havia sido torturado, estava tudo ensanguentado.

A memória era muito pesada, e quando eu fui desenhar apenas fiz isso, o alicate.

A tortura do dedo

Em 1942, eu e a minha família fomos enviados para o campo de concentração em Ferramonti di Tarsia. Lá não se matava, era apenas um campo de trabalho. Passamos algum tempo fechados, dormimos em cima de tábuas, comida péssima. Só havia grão de bico, por isso que eu odeio grão de bico.

En Ferramonti

Qual a proposta do seu trabalho quando você cria esse contraste de cor grande entre frente e fundo?

Porque isso era terrível. Era um campo de concentração, e quando ele foi libertado, eu não quis nomeá-lo. Escrevi Ferramonti ao contrário. Eu não queria ficar em Ferramonti, todo mundo pegou malária lá. Só eu, minha mãe e minha irmã que não.

¿Cómo llegaste desde allí a Brasil?

Ficamos em torno de oito meses. Logo em seguida vieram os ingleses e nos libertaram. E depois vieram também os americanos. Ficamos livres, mas não tínhamos para onde ir. Acabamos indo para a Sicília.

Até que Roma foi finalmente libertada, e nós fomos. Acabamos recebendo uma casa de uma família que havia fugido para o norte. Foi uma coisa deliciosa, por mim nunca teríamos saído de lá.  

Mas aconteceu que tanto a Itália como a Iugoslávia estavam brigando pela cidade de Trieste. Como nós éramos iugoslavos, então o governo italiano disse que a gente tinha que sair da Itália, porque nós éramos considerados inimigos. Nós falamos que não éramos inimigos, tínhamos perdido a cidadania, nós éramos apátridas. Eu tinha uma vergonha desgraçada de ser apátrida. Mas falaram que tínhamos que sair. Então, meu pai tentou os Estados Unidos e a Austrália e não conseguiu. Finalmente, uma consulesa em Firenze nos deu os documentos para vir para o Brasil. 

Quando finalmente estávamos atravessando o Equador meu pai tirou a roupa, pegou água do mar e se batizou… ele e outros homens.

Entramos no Rio de Janeiro às cinco horas da manhã. Tudo era maravilhoso, verde, divino.

Passagem do Equador

Os objetos e as suas histórias

Como você se tornou artista e restauradora?

Desde sempre quis fazer artes, mas meu pai não deixava, ele dizia que todos os artistas eram boêmios. Acabei fazendo dois anos de medicina e desisti. Foi uma experiência terrível!

Eu casei, tive dois filhos e aí comecei a estudar. Comecei a frequentar o cursinho na Belas Artes, escondida do meu pai… tinha medo dele achar ruim. E depois prestei vestibular, e entrei.

Um dia fui ao MASP (Museu de Arte de São Paulo) e conversando com Isis Baldini, que é a maior restauradora de papel atualmente, perguntei se ela poderia me ajudar a restaurar alguns somiês que haviam sido danificados. Ela me disse o seguinte: “Você vai me pagar R$ 150,00 por mês, e você vai aprender a restaurar!”. Eu nunca tinha feito restauro na vida, e acabei ficando com ela pelo menos dois anos.

Você é uma das fundadoras do Museu Judaico de São Paulo, atualmente é coordenadora do Acervo de Objetos. Nessa lógica de que os objetos contam histórias, você poderia contar como foi a construção do acervo do Museu?

No final dos anos 1990, eu recebi a informação que estavam montando um possível Museu Judaico, e que as reuniões eram na Hebraica. Eu fui na reunião, e percebi que haviam engenheiros, médicos, mas ninguém entendia sobre museus. Eu já estava na Pinacoteca naquela época e tudo que eu precisava, eu ia para a Pinacoteca pesquisar. 

Por exemplo, comecei a receber muitos objetos, e acabava colocando em caixas. Pensei comigo: isso não deve estar certo; aí eu fui na Pinacoteca perguntar como era feita a separação e catalogação dos objetos. Eles me disseram que havia o Livro do Tombo, fui e comprei um.

Outro exemplo, me falaram para ir ao museu de arte japonesa para entender como eles guardavam os tecidos. Eu fui, eu e meu professor de sumiê para visitar como é a manutenção e o armazenamento de tecidos, que são mais delicados. Depois eu fui ao Museu no Exército… e então fui vendo como que guarda chapéu, sapato, objetos de metais, tudo.

Em uma entrevista, você comenta que o seu livro A História de Ruth surge como uma tentativa de explicar para as pessoas os objetos, né? Você diz “tem que ter o que quer dizer…”, e depois “há necessidade de contar o que é…”. Eu achei essas duas frases muito bonitas, porque a história dos objetos é também a história das pessoas. Você poderia comentar um pouco mais sobre isso?

Isso. Acabei de escrever sobre isso em um outro artigo, contando como surgiu o Museu. Eu sempre falo, o que vale não é o objeto em si, mas sim a história que está por detrás dele. Quando teve A Noite dos Cristais (Kristallnacht), logo após quebrarem todas as lojas e casa, os judeus começaram a vasculhar e varrer os escombros, um rapaz pisou em uma coroa de Torá, ele pôs no bolso. Bom, este Keter (Coroa da Torá) está lá, no MuJ [Museu Judaico de São Paulo] exposto. Então é a história dele, desse rapaz.

Por exemplo, essa mala na sua frente. A primeira vista é apenas uma mala. Mas ela guarda a minha história, eu carreguei ela, viagem com ela mundo afora.

Porque você acha que, a partir de sua experiência de vida, você se conecta tanto com a história dos objetos? 

Não sei. Talvez porque a minha boneca, as coisas dela, a maleta… se perde tudo, sabe? E a gente vai perdendo as pessoas, as memórias… então parece que fica algo aguardado em alguma coisa, né? Em algum objeto. 

Esse apego pelos objetos, provavelmente está atrelado aos acontecimentos da guerra que me atravessam. Acredito que as pessoas têm esse apego pelas coisas. A possibilidade de narrar suas histórias.

Por exemplo, quando nós fugimos não tínhamos nada, então, quando estávamos em Split, minha mãe comprou uma boneca. A dona da casa que nos alugou um quarto dava para ela alguns retalhos. Com todos aqueles retalhos minha mãe fez as roupinhas da minha boneca. Eu doei tudo para o Museu Judaico de São Paulo. Passei noites sem dormir depois de ter doado a minha boneca. Até que peguei uma chapa e desenhei a boneca. Agora, eu tenho a boneca de volta.

A boneca

Como é que você usa a arte hoje em dia para lidar com suas memórias? 

Eu sempre estou contando coisas que me aconteceram. Até hoje. Eu sempre desenhei. Em suma, eu me transporto para essa realidade. Sempre. É um dom. Mas, como guardar essas memórias em algum lugar? Talvez deseje guardar, sim. De guardar por onde eu passei e as coisas que vivi. Porque eu estou contando alguma coisa, sempre.

E nessa lógica, os objetos contam a história das coisas?

Os objetos contam absolutamente tudo. Todas as coisas que recebi há por trás uma história, e é essa a beleza da coisa. Os objetos são a prova de que as coisas aconteceram. O próprio objeto que guarda a prova de que algo aconteceu, e nós temos onde guardar isso.

Qual é o objeto mais emocionante que recebeu?

Recebi de um senhor uma vez uma pequena Torá encontrada no Egito, sobrevivente de uma espécie de Kristallnacht que aconteceu no Cairo. As Torot dos mizrahim são diferentes das Torot dos ashkenazim, elas são duras por fora. E foi o que ele achou, são todas decoradas, lindas. Ele me deu, e agora ela faz parte do acervo de objetos do Museu Judaico, e eu chorei de emoção.

Museu Judaico de São Paulo

  • Tamara Crespin é filha de Luciana, que é filha de Dora, que é filha de Trena – que nasceu no shtetl de Lódz, mas morou no Bom Retiro, São Paulo. Desenvolve uma prática transdisciplinar situada entre produção cultural e processos editoriais, com ênfase nas relações de diáspora e memória judaica, literatura e arte contemporânea e as disputas simbólicas dos territórios urbanos.

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